domingo, 11 de setembro de 2016

Conhecendo o Amazonas – Parte 3/3: Novo Airão e “Mirante do Gavião Amazon Lodge”

Ao planejar nossa primeira viagem ao Norte do País, nós pensamos: “Estaremos em Manaus, porta de entrada da Floresta Amazônica, que tal abandonarmos um pouco a cidade e adentrarmos na mata?”. E foi assim que surgiu a ideia de nos hospedarmos num hotel de selva.
Como não desejávamos abrir mão de um mínimo de conforto (ar condicionado, banho quente e cama limpa e macia), nosso agente de viagens indicou o “Mirante do Gavião Amazon Lodge”, localizado no município de Novo Airão, a 180 km da capital amazonense. Um hotel lindo, na margem do Rio Negro, com uma arquitetura moderna e sustentável, que, utilizando predominantemente madeira-de-lei na sua construção, acabou sendo integrado à paisagem natural do local.







Confesso que, num primeiro momento, o preço do pacote nos assustou. No entanto, restou justificado assim que analisamos tudo o que era oferecido: transfer de ida e volta de Manaus, 3 refeições diárias (café da manhã, almoço e jantar), suíte aconchegante e todos os passeios pela região.
Neste post, vou tentar, em breves palavras, relatar como foi a nossa hospedagem e, também, descrever os encantos dessa terra linda e rica.      

SUÍTE
Nós ficamos numa suíte de padrão “comfort”. Ela era bem ampla, o que permitiu uma tranquila acomodação da nossa bagagem e a livre circulação pelo recinto. A decoração rústica era muito charmosa e composta por elementos do artesanato local, resultando num ambiente agradável, silencioso e zen.
Foi fácil perceber que tudo foi elaborado com muito zelo, cuidado e atenção.

     
O quarto oferece ao hóspede o necessário para uma cômoda estadia: frigobar retrô da Brastemp recheado de bebidas e guloseimas; arara para acomodação das roupas; escrivaninha e cadeira para trabalho ou estudo; mesinha de centro e pufes...


...cama em tamanho king-size, com colchão, travesseiros e lençóis macios e confortáveis...


...varanda equipada com rede, mesa e cadeiras; chuveiro, com excelente vazão de água, integrado ao quarto; área do sanitário isolada...


...produtos da Natura com fragrância de frutos regionais.   


Como a finalidade é relaxar e curtir a natureza, não há televisão na suíte. E a internet só está disponível no hall do hotel, o que permite uma rápida conferência de e-mails e redes sociais.
Outros hóspedes nos contaram que precisaram matar uma aranha pequenina ou um outro inseto qualquer no quarto, porém, nós não tivemos nenhum contratempo desta espécie. Numa das vezes em que tomei banho, pelo vidro que separa o banheiro da área externa do quarto, avistei a sombra de um sapinho, mas, para a minha sorte, ele estava do lado de fora :o)

PASSEIOS
Nossa viagem ocorreu no período da cheia. Nesta época, a maior parte das ilhas fluviais do Arquipélago de Anavilhanas são tomadas pela água, formando compridos corredores de navegação.
Utilizamos voadeiras (barcos velozes) em quase todos os passeios, exceto no city tour pela cidade de Novo Airão. E era uma delícia ir curtindo a beleza quase intocada da Floresta Amazônica com um vento fresco e puro batendo no rosto. Naqueles momentos, a sensação que eu tinha era que a vida tinha dado um “stop”, que eu não precisava me preocupar em preparar o almoço ou em ir trabalhar, a única coisa que eu tinha para fazer era curtir o momento, a simplicidade da vida, esvaziar a mente ou refletir sobre qualquer coisa que passasse pela minha cabeça. Eu poderia não ter feito trilha, não ter visto os botos ou ouvido os pássaros, mas só estas navegações já teriam valido a viagem.


No primeiro dia, chegamos ao hotel perto da hora do almoço. Fizemos o check-in e um atencioso funcionário nos introduziu à filosofia e à arquitetura do lodge, bem como explicou o funcionamento do restaurante e dos passeios.
Após o almoço, seguimos para um city tour pela cidade de Novo Airão, que é bem pequenina. Conhecemos a estrutura simplória do porto, visitamos lojas de artesanato e produtos indígenas, e exploramos a Fundação Almerinda Malaquias, que utiliza restos de madeira doados para ensinar marcenaria aos adolescentes da região e fabricar pequenos móveis e objetos, gerando uma renda para comunidade local.
  



Ao cair da noite, acompanhados pelo Sr. Antenor e pelo Marcos, saímos para fazer a focagem de jacaré. No breu da noite, na pequena voadeira percorrendo o Rio Negro, iluminados apenas por um spot de luz ligado ao motor do barco, senti, literalmente, a minha pequenez neste imenso universo e tive a minha coragem colocada à flor da pele.
Com o Marcos pilotando o barco, o Sr. Antenor ficou na proa, com os olhinhos atentos à procura dos jacarés. Primeiramente, ele pegou um filhotinho, que parecia um pouco maior do que uma lagartixa.


Depois de uma tentativa frustrada, a voadeira encostou nas árvores e o Sr. Antenor, confiante, desceu falando: “Marcos, se precisar, eu grito para que você vá me ajudar!”. O auxílio foi necessário e eu e o Daniel fomos “largados” no barco. Com os olhos abertos, mal enxergávamos a nós mesmos. Ouvíamos o barulho da floresta, que se enche de vida com o calar da noite, e eu pensava: “Meu Deus, o que foi que eu inventei? Onde vim parar? Se os guias não voltarem, o que iremos fazer? Ainda que consigamos ligar o barco, não saberemos por onde começar: direita ou esquerda, para frente ou para trás”. E um misto de sensações começou a se revezar: curiosidade, excitação e medo.
Vimos uma luz e ouvimos um barulho vindo em nossa direção, reconhecemos as silhuetas do Marcos e do Sr. Antenor segurando algo, dessa vez, bem maior. O tamanho do jacaré devia ser excepcional até mesmo para eles, porque o Marcos também quis registrar o momento (rsrsrs).



Depois de sentirmos a couraça escamosa do jacaré e tiramos umas fotos, tudo bem rapidinho, o réptil foi devolvido em segurança e intacto ao seu habitat natural.
No segundo dia, o Marcos nos guiou por uma trilha de uma hora e meia pela Reserva Ecológica de Madadá, aonde tivemos uma aula sobre noções de sobrevivência na selva e apreciamos as Grutas de Madadá.




Enquanto explorávamos a Floresta Amazônica, o Sr. Antenor preparava o nosso almoço: tambaqui assado na brasa. Uma delícia!



Após o almoço, pudemos contemplar o Arquipélago de Anavilhanas, visitamos uma árvore gigante da espécime Tanimbuca, praticamos pesca esportiva de piranhas e tomamos banho no Rio Negro, que tem uma cor avermelhada.


No último dia, acordamos logo cedo para contemplar o nascer do sol no Arquipélago de Anavilhanas.





Após o café da manhã, fomos interagir com os botos cor-de-rosa no Flutuante da Marilda.




Por fim, no nosso último passeio pelo Estado do Amazonas, fizemos uma trilha aquática pelos igapós, aonde pudemos desfrutar do voo da garça branca amazônica.


   
Tem como não se apaixonar e se encantar por esse lugar?!?!


Todos os passeios foram presididos pelos funcionários Antenor e Marcos. O Sr. Antenor é uma verdadeira joia rara, apaixonado pelo que faz, simpático, prestativo e responsável. Conhece como ninguém a região e se sente feliz em exibi-la aos turistas. E o Marcos é um jovem esforçado, cuidadoso e com uma desenvoltura exemplar para ensinar sobre a Floresta e sua biodiversidade.  Adoramos ter sido guiados pelos dois.

RESTAURANTE CAMUCAMU
A hora das refeições era um espetáculo à parte.
Utilizando o salão do Restaurante CamuCamu, o café da manhã é servido direto na mesa. Nada de precisar se levantar para selecionar a comida do buffet. E opções é o que não falta: frutas, queijos, frios, pães, doces, geleias, café, leite e sucos.




No almoço e no jantar, os pratos são escolhidos do cardápio do Restaurante CamuCamu, que foi elaborado pela Chef Debora Shornik.
Agregando os conhecimentos da gastronomia contemporânea com os ingredientes do Amazonas, a Chef desenvolveu pratos leves e que exalam muito sabor. Embora enxuto, o cardápio é bem equilibrado, com deliciosas opções de peixes, carnes, frangos, massas e pratos vegetarianos.    
O serviço é à la carte. Por isso, eles aconselham que os hóspedes, com um pouco de antecedência, agendem o horário da refeição e já escolham os pratos. Deste modo, na hora programada, assim que os comensais se sentarem, as comidas já começarão a desfilarem pela mesa.
Na diária, estão incluídos uma entrada, um prato principal e uma sobremesa por pessoa. As bebidas não estão contempladas; pediu, tem que pagar.
Por mais que tenha gostado do que fui escolhendo, fui pedindo coisas diferentes a cada nova refeição, sem repetições. O que permitiu que eu desbravasse boa parte do menu. É lógico que um prato ou outro acabou se adequando melhor ao meu paladar, mas, sem medo, afirmo que todos estavam muito bem executados.
O que mais me encantou foram as saladas. Nada de “Caeser”, “Caprese” ou qualquer outra de conhecimento global. Todas desenvolvidas pela Chef, que, com perfeição, soube harmonizar os ingredientes e equilibrar o sabor e frescor das criações.
Abaixo, descrevo e ponho as fotos das saladas que provei.
Desde já, peço desculpas, pois a iluminação do local prejudicou um “pouquinho” a qualidade de algumas fotos.
Salada de Beterraba com balsâmico e mix de folhas e ervas:


Salada de Pepino com lentilha, ervas, iogurte e gergelim:


Salada Verde com tomates, ovo, cenouras marinadas e semente de girassol:


Salada de Trigo com cebola roxa, tomate, abacate, castanhas e ervas.


Eu sou uma pessoa que, salvo raras exceções, não gosta e, por consequência, não come peixe. Eu amo a carapeba e a agulhinha fritas da minha terra (Alagoas), curto filé de tilápia, bacalhau e salmão. Todavia, odeio pescado em posta e com gosto ou cheiro de maresia. Entretanto, como os frutos de água doce são a base da gastronomia amazonense, viajei de mente aberta, decidida a mergulhar de cabeça nos peixes que atravessassem o meu caminho. E o resultado não poderia ser mais surpreendente: meu paladar foi agraciado com o que encontrou. Peixes de carne clara e macia, com um sabor suave e agradável.
No Restaurante CamuCamu, provei dois pratos de peixe. Pirarucu fresco grelhado com batata doce e salsa de leite de coco e gengibre. Uma combinação leve e interessante.


O segundo peixe foi Surubim ao creme de castanhas com purê rústico de cenouras e favas verdes. Um prato pastoso, mas delicioso.


Estou longe de ser uma criaturinha saudável e só refeições leves, com saladas e peixes, começaram a incomodar as minhas lombrigas. Por isso, numa noite, resolvi me jogar num Hambúrguer de fraldinha e alcatra com cebolas assadas, batatas fritas e aioli. À primeira vista, o sanduíche pareceu pequeno e o pão massudo. Mas o tamanho foi suficiente, mesmo para o meu marido, que resolveu fazer o mesmo pedido que eu. E o pão era macio e saboroso.


Na última refeição, o escolhido foi o bom e velho Filé Mignon, acompanhado de batatas e cebolas grelhadas com molho de tucupi e mostarda.


Só consegui desfrutar das sobremesas nos dias em que fui de peixe como prato principal.
Provei a intitulada “Oreo”, combinação de biscoito, ganache de chocolate e compota artesanal de cupuaçu.


O tradicional “Pudim de Leite” ganhou um toque especial e foi servido com castanhas e creme de laranja e Contreau.


Se a apresentação dos pratos enche os olhos e os sabores explodem na boca, o atendimento toca o nosso coração. Jovens da cidade, que foram treinados e servem com cuidado, cordialidade e simpatia. O Jackson é centrado, focado, muito atencioso e inteligente. A Bia parece meio calada, mas se você der abertura, se revela uma moça simpática e conversadeira, mas, importante frisar, sabendo o horário de deixar os hóspedes à vontade e, também, de voltar ao trabalho. E a Adriele é mais acanhada e envergonhada, no entanto, muito prestativa.
Adoramos ver o empenho destes jovens, que parecem ter amor pelo que fazem e uma grande gratidão ao Mirante do Gavião, que trouxe novas oportunidades de emprego para a comunidade local.  

IMPRESSÕES FINAIS SOBRE O HOTEL
Era inevitável, ao retratar este trecho da viagem, descrever a nossa experiência no Mirante do Gavião, pois foi lá, no Restaurante CamuCamu, que realizamos todas as nossas refeições e foi a equipe de guias dele quem promoveu todos os nossos passeios.
A arquitetura do lodge é deslumbrante, mas a estrutura de lazer se resume a uma piscina. Não há sauna, academia, spa, nem quadras esportivas. No entanto, você não sentirá falta de nada disso, já que os passeios pela região, em geral, têm uma longa duração. A ideia do hotel é, de fato, servir de ponto de apoio para refeições e acomodação, porque o lazer será oferecido pela natureza. E, caso você não queira voltar para o quarto após a excursão, terá toda a imensidão do Rio Negro e a piscina a sua disposição.
O hotel oferece tudo que o hóspede precisa: uma bela atmosfera, suítes acolhedoras, uma equipe preparada e cordial, e passeios maravilhosos.
O que posso dizer é que foi uma breve, mas doce estadia, que, com toda certeza, deixou um gostinho de quero mais. Foram dias de charme e conforto na selva. Por isso, recomendo de olhos fechados.

CONCLUSÃO FINAL DA SÉRIE CONHECENDO O AMAZONAS
Essa, certamente, foi uma viagem que deixou muitas marcas. Saí da minha zona de conforto e fui me aventurar num universo completamente desconhecido, cheio de verde, água, bichos e zumbidos. Era impossível não ser tocada por tanta beleza e grandiosidade, que me instigou e intrigou.
Quando fomos conhecer os botos, uma turista (hospedada em outro lugar) reclamava para o seu guia que o hotel não deveria fazer esse passeio, que as pessoas vão até lá para conhecer a natureza no seu estado natural, com o mínimo de interferência humana. E eu pensei: “Os botos são fofinhos e eu adorei vê-los de perto e sentir seu corpo gelatinoso, mas será que essa senhora não tem razão? Será que fornecer alimento não faz com que eles se acomodem e deixem de exercer o seu papel na cadeia alimentar?”.
Fui para o Amazonas com um pensamento, que era: “Que pena que nem todos podem e, na verdade, a maioria não se interessa ou sente prazer em passeios como esse, de ecoturismo”. Mas saí de lá com outro: “Ainda bem que é um seleto grupo de pessoas que curtem a natura e se aventuram por ela. Já pensou o quanto seria prejudicial para a Floresta Amazônica (e tantos outros lugares) se todos quisessem explorá-la? Aumentando o número de hotéis na região e o de barcos nos rios?”.
Assisti a um documentário muito interessante no Netflix, chamado “Amazônia Eterna”. E um dos pesquisadores esclarecia: “Tem que ser atribuído um valor econômico a floresta em pé, porque sem esse valor, a floresta vale mais com suas árvores desmatadas”. É triste imaginar que a ganância humana é capaz de destruir algo essência à vida no planeta. Porém, essa é a realidade! As coisas parecem ter preço e não valor.
Torço por mais oportunidades de desbravamento deste Brasilzão. Quero conhecer o meu País, com toda a sua diversidade geográfica e cultura. Quero difundir nossas tradições. E, quem saber, ajudar as pessoas a compreendê-lo melhor, respeitá-lo e preservá-lo, para que outras gerações possam conhecê-lo do jeito que ele é.  


INFORMAÇÕES:
Mirante do Gavião Amazon Lodge
www.mirantedogaviao.com.br/pt-br/
Endereço: Rua Francisco Cardoso, s/n, Nossa Senhora Auxiliadora, Novo Airão – Amazonas
Fone: +55 92 3365-1644 / 99503-8634


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sexta-feira, 24 de junho de 2016

Conhecendo o Amazonas - Parte 2/3: Restaurante Banzeiro

Na contracapa do livro "Diário da Cozinheira: viagens, memórias e receitas", da Chef Carla Pernambuco, Ricardo Freire escreve: "Quer você queira ou não, toda viagem é gastronômica. Você pode cabular todos os museus e se recusar a visitar as atrações turísticas, mas necessariamente vai fazer três refeições por dia. Sorte de quem não desperdiça suas viagens entre pizzarias e fast foods. Porque é na comida que um lugar se revela por inteiro. A chave para entender uma cultura é fazer uma incursão à sua mesa". E, como eu não consigo discordar destas palavras, estando em Manaus, precisava conhecer o restaurante Banzeiro, que proporciona uma deliciosa viagem pela cultura e pelos sabores da Amazônia.
Eu sou nordestina, moro há 8 anos em São Paulo, conheço pouquíssimo da região Sul do País e nada do Centro-Oeste, mas, ainda assim, vou me arriscar a dizer que o Norte representa o que há de mais diferente e exótico no Brasil. E eu explico o porquê.
A região é quase que totalmente tomada pela Floresta Amazônica e cortada pela maior bacia hidrográfica do planeta, a Amazônica. Com 25 mil km de rios navegáveis e uma infraestrutra escassa de rodovias e ferrovias, a navegação se tornou o principal meio de locomoção. Por isso, como já falei no post passado, vemos postos de gasolina instalados em barcos, no meio dos rios. E vemos, também, lojas de utilidades domésticas, ao estilo Casas Bahia, exibindo em suas vitrines: geladeiras, fogões, camas, sofás e motores de barco. Percebe-se, assim, o quanto a geografia do lugar molda a vida dos moradores, não só em termos de locomoção, mas também de alimentação.
"Isolados" do resto do Brasil e compartilhando de conhecimentos indígenas, utilizam as matérias-primas locais para desenvolver sua culinária à base de peixes de água doce (pirarucu, surubim e tambaqui), mandioca e frutas (cupuaçu, tucumã, guaraná e açaí).
No restaurante Banzeiro, comandado pelo Chef Felipe Schaedler, o Amazonas é formidavelmente bem representado. A começar pelo nome. A palavra banzeiro significa sucessão de ondas provocadas por um barco em movimento. E o meio de transporte mais comum na região ganha destaque na decoração do estabelecimento, que tem vários remos separando o hall de entrada do salão e uma canoa fixada em uma de suas paredes.


Como nós ficamos no primeiro salão, não conheci a parte interna da casa, mas, por fotos, vi que a ode ao Amazonas continua restaurante à dentro, com fotos e exemplares de produtos e utensílios locais dispostos ao longo da sua extensão.
Dá para ver que, embora catarinense, foi lá que o Chef se encontrou e, encantado pela riqueza e diversidade daquela terra, a explora, respeita e difundi tão bem.
Com as passagens compradas e os hotéis reservados, a minha primeira ação foi entrar em contato com o restaurante para agendar a minha visita. O que foi feito com 2 meses e 20 dias de antecedência. No entanto, quando chegamos lá, o meu nome não constava na lista. Fiquei um tanto chateada com o desleixo da responsável pelas reservas, afinal, trocamos uns 4 ou 5 e-mails e ela havia confirmado o agendamento. No entanto, como havia várias mesas disponíveis, decidi que está "pedra" no meio do caminho não iria atrapalhar a minha noite.
OBS.: a garçonete me informou que o horário do almoço é o mais concorrido. Então, se quiser ir fazer esta refeição sem precisar enfrentar uma lista de espera, faça uma reserva através do site (prometo que vou torcer para a sua reserva dar certo! Rsrsrs).
Pelo site, eu já tinha dado uma zapeada no cardápio e decidido provar o "caldinho de tucupi, jambu e camarão fresco" (individual - R$ 30,00), pois, embora já tenha sentido a dormência na língua ocasionada pelo jambu, não faço ideia de que gosto tem o tucupi (sumo extraído da raiz da mandioca brava). Todavia, assim que nos instalamos, a garçonete serviu a cortesia do Chef: "caldinho de tambaqui", ralo, mas bem temperado com ervas aromáticas e farelos de peixe. E meu plano inicial foi por água abaixo, visto que, no calor de Manuas, a última coisa que eu faria seria passar a noite tomando caldo quente (rsrsrs).


Para beber, mesmo acreditando que seria bem enjoativo, arrisquei no drink "Coco Banzeiro" (R$ 20,00), mistura de creme de leite, leite condensado, leite de coco, gelo e vodka. E que surpresa maravilhosa!!! Uma harmonização perfeita dos ingredientes, com sabor predominante do leite de coco, que  camuflou muito bem o creme de leite e o leite condensado.


Na seção de entradas, o primeiro exemplar exibido é "formiga saúva e espuma de mandioquinha - servido em colher individual" (R$ 16,00). Porém, ainda não foi dessa vez que topei comer inseto. Quem sabe um dia, quando eu for ao D.O.M, que a oferece no seu menu degustação, a coragem floresça...
Nossa entradinha escolhida foi a porção de "camarão empanado ao Uarini" (R$ 66,00). Uarini é a farinha que sobra na peneira. Por ter o grão mais grosso que o normal, também é chamada de ova ou ovinha. Lembra flocos de tapioca. O camarão empanado nesta farinha ficou delicioso, com a casquinha bem sequinha e crocância extra. Foi servido com um molhinho rosé bem suave, que parecia ter catupiry na composição.


Dentre os pratos preferidos do Banzeiro (segundo informação constante do cardápio), todos para duas pessoas, escolhemos o "Lombo de Tambaqui Premium" (R$ 120,00), lombo de tambaqui inteiro, assado na parrilla e finalizado com pimenta de cheiro, acompanhado de cebola assada, farofa de Uarini com bacon de pirarucu e arroz branco.
O peixe é levado à mesa sobre um pedaço de folha de bananeira, dispostos numa bonita tábua de madeira, junto com as rodelas de cebola. E a farofa e o arroz são servidos em panelinhas de alumínio.


Mas não é o comensal quem monta o seu prato e, sim, o garçom, que divide o peixe e graciosamente dispõe um pedaço do pescado, a cebola, a farofa e o arroz no refratário, fica até parecendo que o prato já veio arrumado da cozinha.
O lombo do tambaqui tem uma carne extremamente macia e um sabor muito suave. Eu, que não gosto muito de peixe, amei todos os que comi no Amazonas! Talvez a água doce deixe o sabor mais leve e agradável ao meu paladar. A farofa estava tão saborosa, que me recusei a tocar no arroz. Já o Daniel achou os grãos da farinha Uarini muito duros e incômodos de mastigar. A cebola estava do jeitinho que eu adoro: adocicada e se desmanchando na boca!


Uma fruta também muito comum na Amazônia é a banana, que protagonizou a nossa sobremesa.
No menu, além do "Mousse de cupuaçu com castanha" (R$ 14,00), do "Petit Gateau de cupuaçu" (R$ 18,00) e do "Brownie de macaxeira com sorvete de tapioca" (R$ 16,00), havia "Banana do Banzeiro" (R$ 15,00) - bolo de banana com creme branco e bananas cozidas em calda de açúcar - e "Pé de Moleque de banana com calda de cumaru" (R$ 17,00).
Contudo, a nossa escolha recaiu sobre a "Banana de forno" (R$ 18,00), banana frita em cubos, creme pâtisserie com coco, canela e crosta crocante de açúcar, que me lembrou um pouco a "cartola" nordestina. Os cubinhos de banana fritos combinaram muito bem com a cremosa pasta de coco e canela. E o açúcar maçaricado, certamente, funcionou como um excelente toque final. Composição simples e deliciosa.


No Banzeiro, o Chef Felipe Schaedler, fiel aos sabores da Amazônia, pratica uma alta gastronomia que respeita os ingredientes locais, sua textura e cores. Lá, há comida de verdade, autêntica; com pequenas transformações, como no caso do bacon de pirarucu; mas nada de utilização exacerbada dos ensinamentos da gastronomia molecular. Você sente a maciez do peixe, a crocância da farinha Uarini e o frescor do camarão e da banana.
Comida bem preparada e servida com primor, por uma equipe de garçons perfeitamente treinada.
Com certeza, nenhuma visita a Manaus será completa sem um almoço ou um jantar no Bazeiro, que, merecidamente, já entrou para lista de atrações turísticas da cidade.

INFORMAÇÕES:
Banzeiro Comida Amazônica
Rua Libertador, 102, Nossa Senhora das Graças
Manaus – AM

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sexta-feira, 3 de junho de 2016

Conhecendo o Amazonas – Parte 1/3: Manaus ("Encontro das Águas" e "Centro Histórico")

Ninguém precisa puxar a minha orelha, não esqueci que este blog é sobre gastronomia. No entanto, do mesmo jeito que meto a minha colher no tacho alheio, já que não sou nenhuma expert na arte de cozinhar, vou, mais uma vez, enveredar pelos lados do turismo e tentar descrever como foi a minha primeira visita ao Norte do País.
No feriado de Corpus Christi, eu e o Daniel resolvemos fazer uma viagem diferente e partimos para desbravar um pedacinho da Floresta Amazônica.
Antes de chegarmos à selva, passamos um dia em Manaus para fazer o passeio do Encontro das Águas, conhecer o Centro Histórico e degustarmos as iguarias do restaurante Banzeiro. E, neste primeiro post, vou falar sobre nosso passeio turístico em Manaus.
OBS.: O restaurante Banzeiro será retratado na segunda parte da série “Conhecendo o Amazonas”.

ENCONTRO DAS ÁGUAS
O fenômeno natural conhecido como “Encontro das Águas” é a confluência (junção) entre os Rios Negro e Solimões, cujas águas, negras e barrentas respectivamente, não se misturam em razão das diferenças de temperatura, densidade e velocidade.
O Rio Negro nasce na Colômbia, o Solimões no Peru e se encontram em Manaus, aonde correm paralelamente por uma extensão de mais de 6km.
As agências de turismo locais oferecem uma excursão padrão, que tem início às 09:00 e termina às 15:30, englobando o passeio, em barcos grandes, até o Encontro das Águas, almoço em restaurante flutuante e visita ao Parque Ecológico Janauary.
Como só tínhamos um dia em Manaus, se optássemos pela excursão regular, não conseguiríamos conhecer o Centro Histórico. Por isso, escolhemos um tour privativo, cujo passeio completo, sem almoço, durou 3 horas.
Do Porto de Manaus, partimos, num barco rápido, em direção ao Parque Ecológico Janauary passando, inicialmente, pelo igapó, vegetação submersa típica da amazônica. Nesta região de mata fechada, o barco diminui a velocidade e o turista pode desfrutar de toda beleza e tranquilidade da Floresta Amazônica. Sentei-me na proa e entrei em transe, sem conversar com ninguém, fui curtindo o suave deslizar do barco sobre as águas e o vento fresco e puro acariciando o meu rosto e desarrumando o meu cabelo, ouvindo o barulho da natureza pulsante, com seus animais e suas correntezas, e apreciando a água espelhada do Rio Negro refletir toda a beleza da floresta. A sensação de paz e liberdade foi indescritível. Poderia ficar ali para sempre!




Depois, paramos na área dos restaurantes flutuantes do Parque Ecológico Janauary para ver as vitórias-régias. O que nos rendeu, também, um momento de fofura com os macacos-de-cheiro.





Próximo destino: o Encontro das Águas.
Ainda que haja uma explicação científica, é muito louco imaginar que uma mesma substância, a água, possua espécies que não se misturam mesmo estando em contato constante uma com a outra. No tour privativo, como os barcos são pequenos e baixos, é possível pôr a mão nas águas, durante a travessia, e sentir a diferença de temperatura. O Rio Negro com água quente e o Rio Solimões com água gelada.



O passeio é simplesmente deslumbrante e imperdível! E faz a gente perceber o quanto a vida dos amazonenses gira em torno dos seus rios, que fornecem alimento e servem de principal via de deslocamento.
Sem infraestrutura viária e com rios pelos quatro cantos do Estado, ao invés de ônibus, as pessoas são transportadas de uma cidade a outra em embarcações, que chegam a fazer viagens longas (de vários dias) com os passageiros deitados em redes. 



Fiquei impressionada com a quantidade de postos de gasolina flutuantes que vi, inclusive com lojinhas de conveniência.




Impossível não se admirar com a imensidão e diversidade do nosso País, que tem povos com culturas e costumes tão distintos. Foi muito interessante perceber como as pessoas acabam se adaptando a realidade geográfica que as cerca.
  
CENTRO HISTÓRICO DE MANAUS
Porta de entrada para a maior floresta tropical do planeta, Manaus oferece ao visitante uma extensa e sortida lista de atrações turísticas. E, ainda que o ecoturismo se destaque, a capital do Estado do Amazonas oferece, em seu Centro Histórico, um rico e belo patrimônio arquitetônico, que não pode ficar de fora da sua programação.
Pena que o tempo tenha sido curto e alguns contratempos, como um corte e bolhas nos meus pés, além do calor insuportável (Gente, vocês não têm noção do quanto essa região é quente!), tenham nos impedido de percorrer todos os prédios históricos.  Todavia, ainda assim, pudemos apreciar alguns exemplares do período áureo do Ciclo da Borracha no Brasil.
Começamos pelo Mercado Municipal Adolpho Lisboa. Localizada nas margens do Rio Negro, em frente ao Porto de Manaus, esta bonita construção de ferro, em estilo Art Nouveau, foi inaugurada em 1883. Em seus galpões, reúne barraquinhas que comercializam artesanato local, alimentos (carnes, peixes, frutas e legumes), especiarias e plantas medicinais, bem como lanchonetes e restaurantes. Além de souvenirs, é possível comprar (ou só observar!) uns itens bem curiosos como o sabonete de banha de tartaruga e banha de cobra sucuri.







Nossa próxima parada foi o Palacete Provincial, antigo Quartel da Polícia Militar, que integra o conjunto arquitetônico da Praça Heliodoro Balbi e abriga 5 museus: (1) Museu de Numismática - com um acervo de 8 mil moedas; (2) Museu da Imagem e do Som do Amazonas; (3) Museu de Tiradentes - que homenageia os bombeiros e policiais do Estado; (4) Museu de Arqueologia; e (5) Pinacoteca do Estado - com exibição de quadros, fotos e gravuras de artistas locais.
Como era feriado, o complexo estava fechado. Então, só conseguimos apreciar a sua fachada e a Praça Heliodoro Balbi



Já que nenhuma viagem é completa sem que visitemos um templo religioso, lá fomos nós até a Catedral Metropolitana de Manaus, também conhecida como Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição. De fachada simples, pintada de branco e com frisos amarelos, a Catedral exibe um rico interior, com muito mármore, imagens de santos e afrescos.




O nosso tour terminou em grande estilo no Teatro Amazonas. Símbolo de todo o apogeu do Ciclo da Borracha, o teatro tem uma arquitetura exuberante, de encher os olhos. Abrangendo um quarteirão inteiro, a construção exibe toda a sua imponência aos que por lá passam.




O ingresso para visita guiada custa R$ 20,00, porém, meus pés cortados e cheios de bolhas só queriam descansar, então, fomos almoçar no restaurante “Tambaqui de Banda”, que fica em frente à lateral do teatro.
O restaurante serve pratos regionais, tendo como destaque a banda do tambaqui assada na brasa, que foi a nossa pedida e estava D-E-L-I-C-I-O-S-A. Carne branca e macia, bem temperada e com a crosta sequinha. Comi todo o lombo, enquanto o Daniel se acabou nas costelas. Para acompanhar, baião de dois, farofa e vinagrete. A banda média, que serve 2 pessoas, custou R$ 54,90.




O Centro Histórico fica numa região de comércio popular. Em Maceió, seria comparado ao Comércio; em São Paulo, à Rua 25 de Março. Havia muitos ambulantes e pessoas circulando pelas ruas. Contudo, não tivemos nenhum contratempo. Passeamos tranquilamente, inclusive deixando o celular à mostra e utilizando-o para tirar fotos.
Não foi dessa vez que conseguimos visitar, mas já estão anotados para uma próxima viagem (Sim, queremos voltar! E, de preferência, no período da seca, para vermos a outra face da Floresta Amazônica): (a) “Bosque da Ciência do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia)”, que difunde conhecimentos sobre a Amazônia; (b) “Complexo Turístico Ponta Negra” - a região da Praia de Ponta Negra foi revitalizada para, durante a Copa de 2014, servir de palco para a FIFA Fun Fest, o que resultou num verdadeiro complexo de lazer, composto por calçadão, restaurantes de culinária regional, jardins, praça, mirante e quadras poliesportivas; (c) “Zoológico do Centro de Instrução de Guerra na Selva”, com cerca de 300 animais da fauna amazônica; e (d) todo o “Complexo Cultural Largo de São Sebastião”, que é integrado pelo Teatro Amazonas, Igreja de São Sebastião, Núcleo de Artes Plásticas do Centro Cultural Cláudio Santoro, Casa J. G. Araújo, Casa do Restauro, Casa Ivete Ibiapina e Casa das Artes.
  

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Outros destinos que, por serem pouco explorados pelos brasileiros, também ganharam posts:
         Córdoba, na Argentina;
         El Calafate, na Argentina.