sábado, 4 de abril de 2015

Comendo no LA BOURGOGNE (em Punta del Este)

Durante toda a nossa existência, nos deparamos com conflitos entre o produto do nosso cérebro e as razões do nosso coração. E, nesta prosa que eu vou contar agora, não foi diferente. Estávamos indo passar o Carnaval no Uruguai. Seriam dois dias em Punta del Este e dois dias em Montevidéu. Então, um tanto desestimulada (o que é bem raro, principalmente, quando estamos falando de viagem e gastronomia), fui procurar as atrações turísticas e os restaurantes que gostaria de conhecer.
Não tardou até que eu me deparasse com o "La Bourgogne", único restaurante de Punta del Este na lista dos 50 melhores da América Latina do periódico inglês Restaurant. Porém, em meio à crise financeira por que passa o nosso País, embora eu tivesse ficado louca para degustar as delícias francesas preparadas pelo Chef Jean Paul Bondoux, meu cérebro começou a me boicotar, sugerindo que seria melhor poupar essa grana. Assim, meio contrariada, acabei nem tentando fazer a reserva.
Já em Punta, o "inesperado" aconteceu. Aos 46 minutos do segundo tempo, como num golpe de sorte, meu coração levou uma rasteira do meu cérebro, dentro da área, e um pênalti foi marcado em seu favor. Com o placar final de "1 X 0", decidi: “Já que aqui estou, não vou perder a oportunidade, vou conhecer o sofisticado e badalado La Bourgogne”.
Sem agendamento, preferi ir almoçar, pois imaginei que seria mais tranquilo conseguir mesa na hora do almoço do que na do jantar. E realmente não tivemos problemas. Chegamos, no domingo de Carnaval, por volta das 14:00 horas e havia apenas um casal no estabelecimento.
Sentamos no agradável terraço, com vista para o gracioso jardim.


O desfile de Alta Gastronomia não demorou a se apresentar sobre a nossa mesa. Inicialmente, serviram um mousse de banana verde com gelatina de cebolete, finalizado com sour cream e caviar. No começo, achei estranho, mas, como não sou de me intimidar facilmente, fui desbravando a minha entradinha e, no final, acabei achando o resultado encantador.



Em seguida, pães, manteiga aromatizada com salmão, patê de wasabi e legumes perfumados foram postos na nossa frente. Os pães estavam extremamente frescos e macios; os legumes eram levemente cozidos e adocicados; o patê, por incrível que pareça, além de cremoso, exalava sabor; a manteiga, todavia, era intragável. Eu e o Daniel adoramos um pãozinho quente com manteiga, mas não conseguimos comer a manteiga servida, que tinha um gosto horrível de peixe.


Depois, fui ao paraíso. Petit fours amanteigados, quentinhos, deliciosos e que se desmanchavam na boca foram servidos nos sabores queijo, azeitona e gergelim. Eu torci para que o Daniel não comesse os dele e eu pudesse abocanhá-los. Mas ele também não resistiu!!!


A casa não tem carta de coquetéis, mas eu pedi uma capiroska de morango e eles prepararam pra mim.


Na hora de escolher o prato principal, uma surpresa: o meu cardápio não exibia o preço das comidas, embora o do Daniel o fizesse. Fiquei encucada, mas pensei que eles tinham esquecido de pôr os preços no menu que me foi entregue. Só quando os cardápios das sobremesas chegaram, eu constatei que não havia esquecimento algum, só os homens podem saber quanto vão pagar pelo que irão comer.
O restaurante tem mais de 30 anos de existência e, talvez, quando foi inaugurado, fosse polido e cavalheiresco esse comportamento, mas em pleno Século XXI? Achei constrangedor ter que ficar perguntando ao meu marido quanto custava o prato que eu queria pedir.
Vejam: o cardápio masculino tem uma fita azul; o feminino, uma rosa.


A tática do restaurante acabou funcionando, pois escolhi um dos pratos mais caros do menu: lagosta em infusão de vanilla, abacaxi assado, arroz com leite de coco aromatizado com curry e limão. Porém, eu confesso: valeu cada centavo dos R$ 280,00 que eu paguei!!! Carnuda, macia e perfumada, a lagosta estava no ponto certo de cozimento (zero por cento borrachuda). O arroz em estilo tai, de tão bom, dava para ser comido como um risoto de prato principal e não apenas como acompanhamento. Pediria de novo sem receio algum... simplesmente S-E-N-S-A-C-I-O-N-A-L!!! Um dos melhores pratos que já comi.


O Daniel pediu o “Duo d’Agneau Méridional” (duo de cordeiro), prato que está no cardápio a mais de 30 anos e também é de comer rezando.


De sobremesa, fizemos uma degustação de creme brûlée nos sabores chocolate, baunilha, café, pistache e maracujá. Apesar do creme de pistache ter um sabor meio artificial de essência e não da fruta seca, todos os cremes estavam divinos. Eu e o Daniel raspamos todos os potinhos. E eu ainda devorei parte da decoração: frutas vermelhas com açúcar e caramelo.


Para encerrar com chave de ouro, o café foi servido com petit four, tartelete de limão, trufa de chocolate e cascas de laranja cristalizadas.


O excelente atendimento, os pratos bem executados e saborosíssimos, e o ambiente aconchegante justificam o preço, que, mesmo achando elevado (pagamos 269 dólares americanos), você pagará com a certeza de ter apreciado uma das melhores refeições da sua vida.

INFORMAÇÕES:
La Bourgogne
Pedragosa Sierra s/n. y Av. del Mar
20100 Punta del Este – Maldonado
Tel.: + 598 (0)42 4820 07
Fax: + 598 (0)42 4878 73



sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

BELGA CORNER: a simplicidade em cada detalhe!!!

Quantas vezes você já ouviu dizer que, primeiro, comemos com os olhos? Eu já ouvi e li essa frase, provavelmente, um milhão de vezes e, com meus olhos “gulosos”, que adoram apreciar um belo prato, não posso discordar, pois desde o momento em que vi, pela primeira vez, a foto do “Waffle com calda de chocolate e chantilly” servido na Belga Corner, a minha vontade foi parar tudo o que eu estava fazendo e sair correndo até lá.
O restaurante Belga Corner, que tem mais cara de lanchonete, fica numa casinha estreita no Itaim, com uma decoração jovial bem agradável e descontraída.
O paraíso da culinária e das cervejas belgas tem um atendimento cordial, uma comida saborosa e apresentada com delicadeza e uma carta de bebidas altamente refrescantes e interessantes. Há as brasileiríssimas caipirinhas e caipiroskas, coquetéis, Sangria, Clericot, vinhos, espumantes, destinados e cervejas, incluindo uma produzida na Bélgica especialmente para a casa.
No cardápio, embora haja o clássico belga "Moules - Frites" (mexilhões com batatas fritas), guisados e saladas, os sanduíches no pão pita, intitulados de “Pittas Corner”, se destacam. E isso se dá tanto pela diversidade de sabores quanto pela forma inusitada como eles estão descritos no menu. Dá só uma olhada:


Para começar os trabalhos, já que estava um dia muito quente, pedi uma Caipiroska Especial de 3 limões, bem geladinha e suavemente adocicada. Cativa-me bastante a maneira como o limão siciliano e a lima-da-pérsia interagem com o limão Taiti, amenizando a acidez e o amargor deste.


De entradinha, pedimos uma porção formada por 4 bruschettas de tomate cereja confit com queijo brie derretido e uma porção de rolinhos de abobrinha com queijo de cabra, lâminas de amêndoa e pedacinhos de damasco. Os petiscos não eram o suprassumo da gostosura, mas estavam bem preparados e eram saborosos.


Como prato principal, resolvi provar um Pitta Corner de galinha. Para quem não conhece, o pão pita parece um pão sírio. Como ele é um disco oco, ao ser cortado ao meio, abre um buraco onde é colocado o recheio escolhido pelo cliente.
O recheio de galinha é composto de cubos de frango, tomate, cebola, milho e cenoura. Com o tempero adequado, o sanduíche ficou extremamente saboroso. Eu adorei!!!
Todos os Pittas Corner vêm acompanhados de 3 molhos: cocktail (rosé), alho e curry. Com o meu sanduba, o molho de curry não combinou e o rosé caiu como uma luva.
A apresentação do prato é bem mimosa. O sanduíche é servido numa cestinha de palha e os molhos em mini jarras de porcelana.




Na hora da sobremesa, eu não poderia ficar sem um waffle. Mas, ao invés da calda de chocolate que tanto vi na foto publicada pela Vejinha na revista impressa e nas redes sociais, pedi morangos. Então, minha guloseima belga foi servida polvilhada com açúcar de confeiteiro e acompanhada de morangos picados e chantilly.  
O waffle era, na verdade, de frutas (morango e manga) com chantilly. Entretanto, como não suporto manga, perguntei se poderiam tirá-la e eles não se opuseram.
A massa do waffle estava bem fofinha, leve e sem muito açúcar... uma maravilha!!!
Quem quiser incrementá-lo, pode pedir à parte doce de leite, mel ou sorvete.


Belga Corner: um lugarzinho delicioso para um brunch, um almocinho informal, um lanche ou chá da tarde. Imperdível!!!

INFORMAÇÕES:
Belga Corner
Rua Pedroso Alvarenga, 666 – Itaim Bibi
Fone: (11) 3078-4359
Fechado na segunda-feira.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Comendo em Maceió: SuR Arte Gastronômica

Faz quase 7 anos que juntei as minhas tralhas e me mudei para São Paulo. Hoje, um retorno definitivo para Maceió parece improvável, mas há sempre bons motivos para visitar a minha Terra querida.
Saudosista, uma das coisas que me conforta é saber que os restaurantes que eu costumava frequentar continuam em pleno funcionamento. E uma coisa que me contenta (e muito!) é ver que Maceió está cheia de novidades gastronômicas (até um curso de graduação na área foi aberto!!!).
Se antes havia, no seleto grupo dos meus restaurantes preferidos, o “Massarella” com sua culinária italiana, o “Divina Gula” com comida da roça, o “Wanchako” oferecendo gastronomia peruana com toques nipônicos e o “Le Courbe” com clássicos franceses. Hoje, há o “SuR Arte Gastronômica”, com sua cozinha contemporânea, cheia de técnica, arte, beleza e sabor, reinventando e elevando a outro patamar pratos repletos de ícones da culinária alagoana, como, por exemplo, a tapioca, a macaxeira, a batata doce, a lagosta, a rapadura e o cajá.


No comando da casa, os Chefs Felipe Lacet e Serginho Jucá formam uma dupla infalível. Se o primeiro, concentrado, mantem o foco na finalização dos pratos que saem da cozinha. O segundo, esbanjando simpatia, faz as honras da casa, percorrendo todo o salão cumprimentando os clientes, servindo os pratos e tirando todas as dúvidas.
Com tanta gentileza e atenção, impossível não lembrar do vigésimo auforismo listado por Brillat-Savarin na sua obra “A Fisiologia do Gosto”: “Entreter um convidado é encarregar-se de sua felicidade durante o tempo todo em que estiver sob nosso teto”.


Éramos 7 e não tínhamos reserva. Fomos jantar numa terça-feira e chegamos pouco depois da abertura da casa, que acontece às 20:00 horas. Foi tranquilo conseguir mesa, mas o cenário logo mudou e uma longa fila de espera se formou.
Assim que nos acomodamos, o Chef Sérgio Jucá veio até a mesa e nos ofereceu o aperitivo do dia: pipoca com manteiga de garrafa de limão siciliano e sal grosso. Quem segue o meu Instagram sabe o quanto eu sou aficionada por pipoca, logo, impossível não me deleitar com esse mimo.


O que eu achei mais legal em relação ao cardápio foi a ausência de autoritarismo, pois, ao contrário de outras casas que trabalham com menu degustação, o SuR não condiciona a experiência a todos os comensais sentados à mesa. Assim, é possível que alguns participem do menu e outros façam seus pedidos à la carte.
No meu caso, não poderia ser diferente! Na minha primeira visita, escolhi o menu degustação, que é composto de 3 entradas fixas a escolha dos Chefs, 1 prato principal dentre duas (ou três) opções disponíveis e uma de duas sobremesas possíveis.
O estabelecimento tem uma adega linda e repleta de bons exemplares, mas se orgulha, também, de preparar ótimos drinks, como a deliciosa caipirosca de morango com framboesa e limão siciliano que provei.


Iniciando a degustação, a primeira entradinha servida foi o “Queijo coalho – avelã – azeite verde (queijo coalho tratado como carpaccio)”. Lâminas de queijo coalho maçaricado, servido com molho pesto, tomate, alcaparras, folhas frescas de manjericão e castanhas-de-caju (embora conste avelã no cardápio). Apesar da grande quantidade de elementos, o “carpaccio” ficou bem harmônico, com os complementos conferindo sabor ao sutil queijo coalho.
Acompanhando: torradinhas de brioche com manteiga, levemente adocicada e condimentada, muito parecidas com as oferecidas no “Wanchako”. Uma verdadeira perdição!
Aqui, eu preciso abrir um parêntesis! Em Maceió (não sei se só lá ou, ainda, em outras partes do Brasil), o pãozinho conhecido como brioche é um pouco diferente do tradicional brioche francês, geralmente preparado com frutas e/ou chocolate. O brioche maceioense é um pão de leite bem leve e assado como se fossem dois pãezinhos em um (queria uma foto para mostrar, mas, infelizmente, não tenho).


A entrada seguinte era uma verdadeira obra-de-arte!!! Daquelas que você fica com receio de comer e acabar com a beleza do prato... “Tapioquinha de bacalhau com suas tintas comestíveis (pimentão vermelho, pimentão amarelo, cheiro verde, azeitona e alho)”. O recheio de bacalhau estava incrivelmente cremoso e os molhos davam um sabor a mais à tapioca.
Ao expressar meu encantamento com a apresentação do prato, talvez a mais bela que já vi, o Chef Sérgio Jucá me explicou que a ideia surgiu quando fizeram o serviço de catering no aniversário do pintor alagoano Delson Uchoa. Na ocasião, desenvolveram os molhos e apresentaram ao aniversariante como tintas, para que este pintasse os recipientes onde as guloseimas seriam servidas.



O que vocês acharam do resultado?
Para finalizar as entradas: “Hot-dog de lagosta com maionese de queijo Prima Donna, mostarda Dijon e macaxeira palha”. Para sentir o máximo de sabor, reduzi o pão pela metade, pois o achei um pouco grande. O sabor da lagosta é muito suave e acaba sendo camuflado pelo queijo... e que queijo!!! A robusta maionese de Prima Donna, na minha opinião, rouba a cena. E a macaxeira palha dá um toque crocante ao sanduíche. Esse, sim, pode ser chamado de hot-dog gourmet!!!


Linhas acima, falei que o prato principal poderia ser um “dentre duas (ou três) opções disponíveis”, isso porque, no menu degustação do SuR, o comensal pode escolher entre o “arroz arbóreo cozido num delicioso caldo de frutos do mar e tinta de lula, com camarão, polvo e lula, maioneses de alho e purê de jerimum picante” e o “peito de pato com feijão verde na nata de Major Isidoro, cebola caramelizada e farofa de rapadura picante”. Todavia, quando o garçom descreveu as alternativas, eu fiz uma cara do tipo: “estou muito a fim de participar da degustação, mas nenhuma dessas seria a minha escolha de prato principal”. Aí, ele acabou dizendo que eu também poderia pedir o “filé mignon, demiglace de vinho tinto, mil folhas de tubérculos regionais e creme de parmesão trufado”. E este último foi o selecionado.
A carne estava suculenta e extremamente macia. Nem preciso dizer que o demiglace de vinho tinto caiu como uma luva, harmonizando perfeitamente com o filé. O creme de parmesão trufado estava de comer rezando (ainda que a culinária francesa esteja meio fora de moda, eu adoro os seus molhos gordurosos e encorpados). Já o mil folhas, que era de batata doce, decepcionou um pouco (e olhe que eu A-M-O batata doce!). Para o meu paladar, teria sido melhor uma porção de batata doce gratinada no creme de parmesão, pois as fatias super finas e sobrepostas do tubérculo, formando o mil folhas, não deixavam o grosso molho penetrar, o que fez com que eles parecessem 2 acompanhamentos ao invés de um só.


De sobremesa, haviam duas opções. Como a minha mãe também estava apreciando o menu degustação, combinamos de cada uma pedir uma sobremesa e dividirmos.
Eu fiquei com o doce “Só – quero – chocolate” (“O” bolo de chocolate com sua calda de brigadeiro, cookies e sorvete de chocolate”). Uma verdadeira tentação, com contraste de texturas, sabores e temperatura. A fofura do bolo com o crocante da farofa de cookies; o doce do brigadeiro balanceado por grãos de sal; o quente do brigadeiro com o gelado do sorvete... Brigadeiro é o doce que eu mais amo no mundo. Logo, aprovei de cara essa sobremesa.


Minha mãe ficou com a “Romeu e Julieta em diferentes finais: bolo de rolo com sorvete de goiaba, calda de goiabada, goiabada cascão, queijo do reino ralado, iogurte grego e catupiry quente”. Eu achei a descrição mais interessante do que a sobremesa em si. Achei que a composição pecou pelo excesso e, embora os elementos tivesse a mesma base (a goiabada), eles não formaram um todo. Pareciam, simplesmente, vários ingredientes dispostos em um único prato... sei lá... Para mim, não ornou!


Acharam que eu ia esquecer de falar sobre o atendimento? Jamais!!! Afinal, é primoroso!!! Com garçons bem preparados, conhecendo bem o cardápio e demonstrando alegria em estarem ali trabalhando e lhe servindo. Fiquei muito orgulhosa de encontrar esse padrão de atendimento na minha Terrinha.
No SuR Arte Gastronômica, assim como um pintor sabe quais linhas traçar e que cores utilizar para obter uma obra-prima; assim como um compositor tem o dom de unir notas musicais compondo belas melodias; os Chefs conhecem os ingredientes que utilizam e sabem como combiná-los para obter o máximo de beleza e, principalmente, de sabor, oferecendo aos clientes deliciosas obras comestíveis. Um concorrente de peso ao posto de melhor restaurante da cidade.
Será parada obrigatória nas minhas próximas idas a Maceió ;o)

INFORMAÇÕES:
SuR Arte Gastronômica
Rua Professora Maria Esther da Costa Barros, 306/320 – Stella Maris
Fone: (82) 9110-2337 e (82) 9678-1687
      


sábado, 3 de janeiro de 2015

Comendo em Maceió: DIVINA GULA

É uma vergonha que meu blog já tenha ultrapassado um ano de existência e que eu já tenha escrito sobre restaurantes de São Paulo, Nova York, Buenos Aires, Córdoba (Argentina), Richmond (EUA), Wintergreen (EUA) e Charlottesville (EUA), mas não tenha contemplado os estabelecimentos gastronômicos da minha terrinha.
Agora, está mais do que na hora de corrigir esse erro!!!
Eu tenho certeza de uma coisa: ninguém duvida que Maceió tenha uma das orlas mais bonitas do Brasil. Entretanto, o que nem todos sabem é que esta terra de sol escaldante e praias deslumbrantes também conquista os seus visitantes pelo paladar.
São milhares de barraquinhas que vendem tapiocas de sabores tradicionais (como a de queijo com coco) e inusitados (como a de carne seca com queijo coalho), carrinhos que preparam o acarajé de um jeito próprio (recheado com camarão sem casca e molho de tomate), bares que servem diversos petiscos e frutos do mar locais (como o siri despinicado e o sururu) e restaurantes dedicados às mais variadas culinárias nacionais e internacionais.
Hoje, irei falar sobre o Divina Gula, um restaurante e cachaçaria que eu costumava ir com uma certa frequência, fosse no Happy Hour de quinta-feira, com os meus amigos, ou no almoço de domingo, com a minha família.
A casa abriu as suas portas em 1988 e se tornou uma das queridinhas de Maceió, em razão dos pratos e drinks bem executados, da boa localização no Stella Maris, do ambiente rústico, agradável e bem decorado e do excelente custo benefício.
Na cozinha do Chef André Generoso, é preparada uma comida mineira com toques nordestinos. Assim, no cardápio, embora haja boas opções de frutos do mar, a roça rouba a cena, oferecendo ao comensal tutu de feijão, costelinha de porco, leitão à pururuca, carne de sol, atolados, feijão tropeiro, torresmo, linguiça, frango com quiabo, couve, angu de fubá e muitas outras delícias. Tudo no capricho, exalando tempero, aroma e sabor.
Tanto as entradinhas quanto os pratos principais são bem servidos, podendo ser facilmente compartilhados. Se você estiver com um grupo grande, aproveite para dividir porções variadas. Assim, conseguirá provar um número maior de guloseimas.
Seja no almoço ou no jantar, antes de tomar uma latinha de coca zero, que é o meu grande vício, gosto de degustar um drink, que não precisa necessariamente ser alcoólico, mas, com certeza, tem que ser bem refrescante. No caso do Divina Gula, cheguei sabendo exatamente o que iria beber: uma tangirosca (caipirosca frozen de tangerina).


Nos acabamos nas entradinhas: pedimos 3 para dividir. E, não satisfeita, ainda pedi um caldinho de feijão bem encorpado, sem torresmo, para iniciar os trabalhos (R$ 6,50).


Rodrigo Oliveira, Chef do Mocotó, é o criador dos deliciosos dadinhos de tapioca, que rapidamente conquistaram o paladar dos brasileiros. No Divina Gula, o Chef é homenageado com os “Tijolinhos de tapioca com queijo coalho” (R$ 19,00), uma massa pegajosa de tapioca granulada com queijo coalho, cortada em quadrados que são fritos e servidos com mel apimentado. Verdadeiros pedacinhos do céu.


Outra entrada de arrancar suspiros é o “Atolado de Carne de Sol” (R$ 30,00), montado com carne de sol refogada sobre purê de macaxeira coberto com catupiry. A carne cortada em cubinhos, bem temperada e se desmanchando na boca de tão macia, forma uma composição bem harmoniosa e extremamente saborosa com o purê e o catupiry cremosos.


E o terceiro petisquinho que devoramos foi um queijo coalho na chapa, salpicado com pipoca de alho (uma espécie de “alho bits”) e servido com pão de alho (R$ 20,90). Uma explosão crocante de sabor!


Para a minha tristeza, retiraram do menu o prato que eu sempre pedia, a “Picanha Napolitana”, que era composta de fatias de picanha cozidas e servidas no tacho, cobertas com rodelas de tomate e queijo mussarela, polvilhadas com orégano.
Eu queria pedir o “Tutu à Mineira” (R$ 65,00), composto por tutu de feijão batido, acompanhado de linguiça caseira, bife de pernil, couve, torresmo, banana à milanesa e arroz. Todavia, minha irmã, com quem combinei de dividir o prato, preferiu a “Carne de sol desfiada com tutu” (R$ 65,00), combinado de carne de sol desfiada e acebolada com tutu à mineira, couve, torresmo e arroz. O tutu estava denso e temperado na medida certa, entretanto, achei a carne um pouco ressecada.


Um prato bacana e bem farto para quem deseja viajar pelos encantos da culinária mineira é o “Amostrado”, que serve 3 pessoas, custa R$ 67,00 e é formado por pequenas porções de tutu à mineira, feijão tropeiro, couve, arroz de alho, linguiça caseira, costela de porco, bife suíno, frango com quiabo, torresmo, farofa de milho com cebola, angu e jiló na chapa.


Quem quer comer bem em Maceió, não pode deixar de visitar o Divina Gula, que, além de restaurante e cachaçaria, já se tornou uma deliciosa atração turística da cidade.

INFORMAÇÕES:
Divina Gula
Av. Engenheiro Paulo Brandão Nogueira, 85 – Jatiúca
Fone: (82) 3235-1016
(Fechado às segundas-feiras)


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Comendo no restaurante número 1 da Argentina: TEGUI

2014 chegou ao fim, mas ainda dá tempo de narrar uma última experiência gastronômica que vivi no restaurante número 1 de Buenos Aires, o Tegui, onde o Chef Germán Martitegui oferece ao comensal uma cozinha autoral, seguindo os ensinamentos da gastronomia molecular.
 No Tegui, achei que alguns preceitos da culinária molecular se mostraram ainda mais evidentes do que no Aramburu, pois, em quase todos os pratos que serve, o Chef procura explorar as diversas texturas e pontos de cozimento dos ingredientes.
Ademais, como um alquimista que conhece muito bem cada elemento que utiliza, Germán Martitegui ousa em demasia, criando pratos que precisam ser devorados em sua completude para que exprimam o máximo de sabor. 
A apresentação dos pratos é fantástica e a execução é inteligente. Entretanto, alguns pratos são bons, outros são ruins e nenhum deles é terminantemente excepcional em termos de sabor.
Isso me lembra uma das críticas que os especialistas gastronômicos, contrários à culinária desconstrutivista de Ferran Adriá, costumavam proferir, acusando o Chef catalão de se preocupar mais com o aspecto visual do que propriamente com o sabor do que servia.
Na experiência Tegui, outra coisa que me chamou a atenção foi que, pela primeira vez, muito do que li a respeito do restaurante, para a minha sorte, não se confirmou. Primeiro, vi alguns blogueiros reclamando que foram proibidos de tirar fotos, o que não aconteceu comigo. Consegui tirar fotos de tudo o que tive vontade e um dos garçons, inclusive, perguntou se eu queria que ele tirasse uma foto minha em frente à cozinha.
Outros reclamavam que os garçons eram grosseiros, entretanto, todos os que serviram a nossa mesa foram extremamente simpáticos e solícitos. No mais, eram esbeltos e de porte sofisticado, parecendo aspirantes a modelo.
Fiz a reserva para 6 pessoas com 2 meses de antecedência, através do endereço eletrônico: info@tegui.com.ar.
Importante salientar que o agendamento é imprescindível!!! Pois a experiência dura cerca de 4 horas, impossibilitando que haja rotatividade.
O restaurante tem um ambiente clean e refinado, com uma linda e moderna adega na entrada, uma área ao ar livre e a cozinha aberta no fundo do salão.
Quando nos sentamos, encontramos em frente a cada comensal um menu, parecido com os que colocam nas mesas de festas de casamento, que anunciava as opções da noite: “Menu Degustação de 5 passos” ou “Menu Degustação de 10 passos”, que podiam ser harmonizados com vinho. Como achamos que a diferença de preço era pequena, optamos pelo menu de 10 pratos, mas sem vinho, que foi pedido à parte.


Para começar a comilança, ofereceram um sour cream de tomilho com crocantes de alcachofra. O sour cream tinha uma consistência de purê e os chips de alcachofra estavam bem sequinhos.
Fazendo uma remissão direta à cozinha molecular, que é considerada um verdadeiro laboratório, várias comidas foram apresentadas em pratos que lembravam uma placa de Petri.


Em seguida, foi servido um pão de mate com manteiga caseira do campo. O pão, que tinha um formato de mini panetone, era esponjoso, oleoso e tinha um sabor estranho. A manteiga não parecia ter nada de especial.
Comecei a pensar: “Xiii... Será que esse jantar será uma decepção?!?!”.


Dando continuidade, tomamos uma sopa gelada de ervilha, manjericão e menta, que foi servida com aspargos e favas cozidos com perfeição, apresentando uma consistência firme. Achei a combinação leve e apropriada para aquele dia de calor.
Exclamação do Daniel: “Coisas da Dri: fazer a gente tomar sopa em placa de Petri, com colher de café!!!”.
Definitivamente, o melhor do jantar foram os comentários (rsrsrs).


Pasmem, até este momento tínhamos comido 3 pratos e nenhum deles fazia parte do menu de 10 passos, pois, quando o garçom trouxe a comida seguinte, anunciou que ela era a primeira da degustação.
O passo inicial, que consistia numa salada de tomates com queijo de cabra ralado, proporcionava ao comensal uma verdadeira viagem pelas texturas do tomate. Havia tomates verde e vermelho; seco, desidratado e fresco; polpa doce e consistente e um refrescante sorvete. Embora algumas pessoas que estavam comigo tenham achado sem graça, eu achei de uma criatividade sem igual, pois não é qualquer um que consegue montar uma bela e saborosa salada com apenas um tipo de fruta.   


O prato seguinte foi uma verdadeira surpresa! Ostra fresca com suco de maçã, maçã ralada de maneira grosseira e espuma de água do mar.
Eu não gosto de ostra e achei a água do mar nitrogenada com um gosto muito forte. Já tinha até desistido de comer, quando o meu marido me aconselhou a misturar tudo e seguir em frente. Gente, eu não sei que processo químico e/ou físico aconteceu! Tudo que eu sei é que ficou diferente, harmônico e com um gostinho cítrico M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O!!!
Começaram a surgir indícios de que seria uma grande noite... Como falei no post anterior, um restaurante que serve culinária molecular provoca um misto de sensações no comensal. Inicialmente, achei que o jantar seria um completo desastre. Neste momento, já estava achando que poderia ser sensacional.


A minha sogra não come nada que esteja cru, então, prepararam para ela uma salada de frutas vermelhas com queijo burrata e redução de vinagre balsâmico, que estava de comer com os olhos.


No terceiro passo, uma miscelânea de sabores e texturas, que de forma balanceada se complementavam. Jamon crudo crocante (salgado), polvo confitado no azeite de oliva, alcaparras fritas, melão cozido no vácuo e creme de abacate (insosso).


Reparem na viscosidade do melão:


Como gosto que as minhas narrativas venham sempre acompanhadas de fotos, sou sempre a última a começar a comer, pois preciso registrar tudo e, de preferência, do jeito que a comida chega à mesa (rsrsrs). Dessa forma, em alguns momentos como esse, acabo sendo influenciada por opiniões alheias de quem prova seus pratos antes de mim.
O quinto passo configurava-se numa morcela (linguiça de sangue) caseira, acompanhada de sorvete de pera e creme de amêndoas.
Depois que meus companheiros de aventura já haviam expressado toda a sua repulsa, fiquei com receio de comer, mas reuni todas as minhas forças e tentei. Tanto a consistência quanto o sabor da linguiça eram estranhos. Já o sorvete e o creme, que seriam ótimas sobremesas, estavam docinhos, refrescantes e muito saborosos. Confesso que não tive coragem de misturar tudo e comer. Ingeri a morcela isoladamente e já foi o suficiente.


O oitavo prato servido, que ainda era o 5º passo da degustação, era composto por mollejas de cordeiro, framboesas, fungos frescos, com duas texturas diferentes, e um molho de azeite de pinho. Enquanto comíamos, começamos a fazer conjecturas sobre o que seria a molleja ou sweetbread, que é uma glândula, e eu acabei perdendo o apetite. Em todo caso, como também não sou fã de funghi, esse prato já estava, desde o começo, fadado ao insucesso.


Peço desculpas, mas só lembrei de tirar a foto do Cremona,  pão típico argentino que acompanhava as mollejas, depois que já havia começado a comer.


O prato seguinte foi uma mistura bem interessante: pargo cozido em baixa temperatura e, após, frito; noodles de calamares (calamares em formato de noodles e não massa com sabor de calamares); castanha do Pará; uma releitura do molho "leite de tigre", comumente utilizado na culinária latino-americana e feito à base de suco de limão, caldo de peixe e especiarias; e pêssego.


O sétimo passo foi tão complexo e cheio de técnica, que fica até difícil de explicar. Comemos um perdiz, cujos pedaços foram apresentados com duas cocções distintas. A pata teve um dos lados fritos e depois foi confitada e cozida à vácuo. Acompanhando o perdiz, havia Humita (comida típica da Argentina, Chile e Peru, que lembra um creme de milho cheio de temperos), crocante de milho, molho de ají e sorbet de damasco.


Nosso último prato salgado foi uma língua de cordeiro com purê de batata, chips de inhame (crocante, mas sem sabor) e molho preparado com a redução do cozimento.
Quando o garçom falou que era língua de cordeiro, involuntariamente fiz uma cara de nojo, mas ele me encorajou a provar e, para minha surpresa, não achei repugnante. Não vou dizer que é a coisa mais gostosa do mundo ou que eu repetiria, mas nunca imaginei que comeria língua e, muito menos, que gostaria. Foi surpreendente! Por isso, eu digo: não tenha medo do novo ou do desconhecido, pois, às vezes, eles podem se transformar em agradáveis surpresas.
Aqui, não posso deixar passar um engraçado comentário da Petonia: “Não consigo comer língua! Só de pensar no cordeiro fazendo méééé!”... kkkkkkk.


Uma coisa engraçada, para não dizer monótona, da culinária molecular é que sempre servem, de sobremesa, frutas e sorbets.
Nossa primeira dessert foi uma salada de frutas vermelhas (morango, amora, mirtilo, framboesa e cereja) com sorvete de morango e cidreira e marshmallow de eucalipto. As frutas vermelhas estavam em suas consistências naturais. O sorvete ficou ainda mais refrescante com o toque da cidreira. Já o marshmallow, com gosto de “sauna”, não me agradou.



Para finalizar nossa degustação, damascos assados no forno de barro, servidos com sorvete de chocolate branco com vinho, cristais de chocolate branco e creme de chocolate ao leite.


Vocês bem sabem que sou comprometida com a verdade. Por isso, não vou mentir!!! Nós éramos um grupo de seis pessoas e apenas eu fiquei encantada com a experiência, os outros acharam que pagaram muito por uma refeição ruim.
No final, o Daniel até brincou, indagando: "Vamos passar no McDonalds?". Eu retruquei: “Você ainda está com fome?”. E ele respondeu: “Estou com fome de comida gostosa!”.
Talvez eu seja um ponto fora da curva, mas a verdade é que, na minha opinião, aqueles que gostam de exagerados pratos feitos podem achar pouca a quantidade de comida servida. Os mais tradicionais podem estranhar os sabores e as texturas. Porém, aqueles que estiverem abertos para o novo, sem dúvida alguma, experimentarão uma das refeições mais surpreendentes de suas vidas... ainda que seja no sentido negativo.
Visitamos a casa no fim de novembro de 2014, quando a cotação do dólar era “1 dólar = 8.5 pesos argentinos”. Para nós, fazendo as contas em real, saia a mesma coisa pagar em dólar ou pesos. A refeição, com vinho e espumante, ficou $ 164 (cento e sessenta e quatro dólares) por pessoa.

Informações:
T E G U I
Costa Rica 5852